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segunda-feira, 15 de março de 2010
No creo en brujas, pero que las hay, las hay...
Seguem, adiante, duas fotos - gentilmente cedidas por Luísa N. - da entrada de um dos túneis secretos que cortam o subsolo de Blumenau:
segunda-feira, 1 de março de 2010
Novos conceitos...
Quando optei constar na descrição desse blog "novos conceitos", ainda não tinha idéia do que queria expressar com tal (in)definição.
Porém, encontrei um vídeo que define o que eu queria dizer com "novo conceito".
É muito interessante!
É muito interessante!
domingo, 28 de fevereiro de 2010
ORDEM DE CAVALARIA 10
O CONCÍLIO DE TROYES E APROVAÇÃO DA REGRA
Em janeiro de 1128, reunidos na cidade de Troyes, distante 55 quilômetros da abadia de Clairvaux, Mateus, bispo de Albano e núncio do papa, os arcebispos de Reins e Sens, dentre outros bispos, abades (dentre os quais Bernardo, de Clairvaux), e mestres, realizou-se o famoso Concílio de Troyes.
Também estiveram presentes no Concílio, os seguintes templários : Hugues de Payens, Roland, Godefroy, Geoffroi Bisot, Payen de Montdidier, e Archambaut de Saint-Amand.
Na ocasião, foi aprovada a jovem Ordem e apresentada sua Regra Primitiva (apelidada “Latina”) com 72 artigos, acrescidos de mais quatro em tradução francesa posterior. BURMAN salienta que, diante do crescente número de irmãos, a versão final da regra atingiu seus 686 artigos.
Valendo-se de SILVA, que utilizou Henri de Curzon, destaca-se o Prólogo da Regra, onde São Bernardo critica o desvirtuamento dos cavaleiros de então, incumbindo aos Templários o resgate da pureza inicial das Ordens de Cavalaria:
“1 - Falamos inicialmente àqueles que secretamente desprezam sua própria vontade e com estudado cuidado, desejam usar e usar permanentemente a mui nobre armadura da obediência. Portanto, advertimo-lo a você que até agora levou a vida dos Cavaleiros seculares, para quem Jesus Cristo não era a motivação, mas que você abraçou por favor humano somente, a seguir àqueles a quem Deus escolheu dentre a massa de perdição e a quem ordenou, através de sua misericórdia plena de graça, que defendessem a Igreja Sagrada, e que você se apresse por juntar-se a eles para sempre.
“2 - Acima de tudo, quem for um Cavaleiro de Cristo, escolhendo tais Ordens Sagradas, deverá em sua profissão de fé unir para diligência e firme perseverança, que é tão misericórdia e sagrada, e é sabidamente tão nobre, que se for preservada intocada para sempre, fá-lo-á merecer a estar em companhia dos mártires que deram sua alma por Jesus Cristo. Nesta Ordem religiosa floresceu e está revitalizada a Ordem da Cavalaria. Esta Cavalaria desprezou o amor pela justiça que constitui seus deveres, não fez o que deveria, ou seja, defender os pobres, as viúvas, órfãos e as Igrejas, mas esforçou-se por saquear, espoliar e matar. Deus está conosco e nosso Salvador, Jesus Cristo; Ele enviou seus amigos da Sagrada Cidade de Jerusalém para os limites da França e Burgundy, que, por nossa salvação e a disseminação da verdadeira fé, não cessam de oferecer suas almas a Deus, um sacrifício bem-vindo.
“3 - Então nós, com toda a alegria e irmandade plena, a pedido do Mestre Hugues de Payens, por quem a retrocitada Cavalaria foi fundada pela graça do Espírito Santo, reunidos em Troyes de diversas províncias além das montanhas na festa de meu senhor São Hilário, no ano da encarnação 1.128 de Jesus Cristo, no nono ano depois da fundação da referida Cavalaria. Sobre a condução e origens da Ordem da Cavalaria ouvimos em Capítulo Comum, dos lábios do mestre mencionado, Irmão Hugues de Payens: e de acordo coma as limitações do nosso entendimento, o que nos pareceu e benefício nós apreciamos, e o que nos pareceu errado nós evitamos.
“4 - E tudo que ocorreu no Concílio não pode ser contado nem relatado; e de forma que não fosse assumido descomprometidamente por nós, mas considerado com grande com pureza sábia deixamo-lo para a discreção dos honoráveis pai São Honorius e ao patriarca de Jerusalém, Stephen, que conheceu os deveres do leste e dos Pobres Cavaleiros de Cristo, por cuja recomendação do Concílio Comum, aprovamos por unanimidade. Embora um grande número de irmãos religiosos que se reuniram no Concílio aprovaram a autoridade de nossas palavras, não poderíamos passar silentes pelas sentenças verdadeiras e juízos que emitiram.
“5 - Portanto eu, Jean Michel, a quem foi confiado o divino ofício, por graça de Deus, servi como humilde escriba do presente documento por Ordem do Concílio e do venerável padre Bernardo, abade de Clairvaux.
SÓU & PHORTES (um romance) 5
ATO VI
PHORTES CRUZA COM O INIMIGO
LEGIÃO DE LUCATRINTA (em coro)
Vamos pra guerra
Avante, companheiros
A batalha nos espera
Teobaldo tombaremos
GENERAL LUCATRINTA
Derrotar quem não presta
Do inimigo, a viga mestra
Do corpo esfacelado
Sua cabeça é o que nos resta
LEGIÃO DE LUCATRINTA
Invadamos a terra
Avante, ó guerreiros
A batalha nos espera
Teobaldo tombaremos
GENERAL LUCATRINTA
Os da Ordem, desgraçados
De insolência tão eivados
Seus algozes estão em festa
Seus destinos estão traçados
LEGIÃO DE LUCATRINTA
O inimigo que impera
Mataremos tão ligeiro
A batalha nos espera
Teobaldo tombaremos
(entra Phortes a “cavalo”, falando sozinho, do outro lado do palco)
PHORTES
Errar, errar, er...raios!
Na vida, um tanto amante
Da Cruz, por tão lacaio
Eis-me cá, um errante
Será que nada valho?
LEGIÃO DE LUCATRINTA
Vamos pra guerra
Avante, companheiros
(avistam Phortes, interrompem a canção, mas recomeçam:)
A sorte nos encerra
Do inimigo sentimos o cheiro
GENERAL LUCATRINTA
Alto lá, ó solitário
O que carregas na bainha?
No peito, um escapulário
É a Cruz tua Rainha?
PHORTES (covardemente assustado)
Não sou o que pensas...
GENERAL LUCATRINTA
Ouça bem, serei mais claro
O mais cristalino que se pode
Confio mui em meu faro:
Não és tu um da Ordem?
PHORTES (covardemente assustado)
Não sou o que insinuas...
GENERAL LUCATRINTA
Conheces Teobaldo, o Bravo?
Se disseres ‘não’, estarás mentindo
Se não és da Cruz escravo
Por que esta roupa estarias vestindo?
PHORTES (covardemente assustado)
Não é minha, a roubei...
(um galo canta; Phortes começa a chorar)
GENERAL LUCATRINTA (rindo)
Três vezes... três vezes “não”, tal Pietro
(furioso)
Não suporto traidor: vade retro...
(menosprezando-o)
Vá-te! Vá-te! Não to quero perto.
Não vales sujar ma lâmina
Se és da covardia adepto
Largo-te à vil infâmia
LEGIÃO DE LUCATRINTA
Vamos pra guerra
O traidor aqui larguemos
A batalha nos espera
Teobaldo tombaremos
ORDEM DE CAVALARIA 9
O INÍCIO
A origem da Ordem dos Cavaleiros do Templo é diretamente vinculada à Primeira Cruzada (1095-09), quando uma legião de cristãos partiu da Europa para o Oriente com o intuito de recuperar o Santo Sepulcro das mãos dos muçulmanos, que o tinha sob seus domínios havia mais de quatrocentos anos.
Foi no Concílio de Clermont, em 1095, que o papa Urbano II convocou os fiéis para uma guerra santa contra o Islão, “É Deus que o quer”, “Ide sob a égide de Cristo” . O papa teria recebido do imperador bizantino Aleixo I Comneno o pedido de ajuda militar contra os infiéis muçulmanos, contudo, muitos outros interesses, legítimos ou não, impulsionaram tanto primeira quantos as outras sete cruzadas, quais sejam, a possibilidade de saquear as cidades que eram tomadas no caminho, acumulando riquezas; de conquistar terras; ou de combater os odiados inimigos pagãos, etc.
Assim, partindo em 1096, e sob as lideranças de Roberto da Normandia, Godofredo de Bulhão, Balduíno da Flandres, Roberto II da Flandres, Raimundo de Tolosa, Boemundo de Tarento e Tancredo, os cruzados passaram “por Constantinopla, onde receberam o apoio do imperador bizantino, os cruzados sitiaram Nicéia; tomaram o Sultanato de Doriléia, na Ásia Menor; conquistaram Antioquia; e finalmente avançaram sobre Jerusalém, conquistada em 15 de julho de 1099, depois de um cerco de cinco semanas.”
Então, Godofredo de Bulhão (ou Bouillon) chefiou Jerusalém até sua morte, em 1100, quando seu irmão, Balduíno I, tomou o título de Rei de Jerusalém em 18 de julho daquele ano.
Jerusalém, por esta época, era um ilha cristã isolada dos condados cristãos de Antioquia e Edessa por vários emirados muçulmanos. O Reino Latino de Jerusalém era, pois, constantemente ameaçado por forças sarracenas que, apesar da derrota na Cruzada, ainda representavam considerável perigo. Além disso, bandos vindos da cidade de Ascalão ameaçavam os peregrinos cristãos que percorriam a estrada que ia de Java à Jerusalém.
Por ser uma “terra sem lei” e possuir áreas vazias em vários pontos da cidade, Balduíno I empreendeu uma política de povoamento em Jerusalém, dando incentivos à imigração e para a permanência dos peregrinos.
Seu primo e sucessor, Balduíno II, que recebeu aquela ameaçada Jerusalém em 1118, então aceitou a oferta de um grupo de cavaleiros dispostos a defender os peregrinos na estrada que unia Java a Jerusalém – linha vital de comunicação, dando origem à Ordem dos Templários.
Edward BURMAN aponta três historiadores que narram a fundação da nova Ordem por estes corajosos cavaleiros:
(1) o arcebispo Guilherme de Tipo, um veemente crítico dos Templários , que, cerca de 50 anos depois dos acontecimentos, relatou ter-se dado a fundação em 1118, quando Hugues de Payens e Geoffroi de Saint-Omer, juntos de outros nobres, fizeram os tradicionais votos da pobreza, castidade e obediência, e receberam do Rei de Jerusalém uma parte ao Norte do Templo do Senhor;
(2) o bispo de Acra (1217-1227) Jacques de Vitry, que teria ouvido a história do Grão Mestre dos Templários Pedro de Montaigu, e relatado mais de um século depois, que em 1119, eram nove os cavaleiros, que serviriam por nove anos, até o Concílio de Troyes (que lhes forneceu a Regra), em 1128; e
(3) o patriarca da Igreja Siríaca de Antioquia, Miguel, o sírio, relatou que após um trágico episódio às vésperas da Páscoa de 1119, quando cerca de 300 peregrinos forma mortos e 60 foram feitos prisioneiros por sarracenos de Ascalão, um grupo de trinta cavaleiros liderados por “Hou[g] de Payn”, recebeu do rei a Casa de Salomão para sua residência e algumas aldeias para seu sustento.
BURMAN rechaça a hipótese de haver qualquer razão mística, “conspiração secreta – ou um conhecimento recém-descoberto” no episódio da fundação, e enumera, citando Du Cange, os nomes dos supostos primeiros cavaleiros do Templo: Hugues de Payens, Geoffroi de Saint-Omer, André de Montbard, Gundomar, Godofroy, Roral, Geoffrey Bisol, Payen de Montdésir, e Archambaud de Saint-Aignan.
Contudo, o próprio BURMAN admite a hipótese da decisão de fundar-se a Ordem haver sido tomada ente 1113-15, quando Hugues de Champagne, suserano leigo de Hugues de Payens e grande proprietário de terras na França do século XII, esteve no Oriente. Hugues de Champagne, doador da terra para a fundação da abadia de Claivaux para (São) Bernardo, teria se encontrado com Payens em 1113, três anos antes de uma provável visita deste à Terra Santa (1116). BURMAN reconhece que o papel de Hugues de Champagne na fundação da Ordem do Templo permanece pouco claro.
Já o português Pedro SILVA defende que Hugues de Champagne esteve com São Bernardo em 1114, quando arquitetaram os fundamentos da futura ordem. SILVA, ainda, aponta Pay[e]ns como a “última vértice do triângulo fundamental nos primórdios da constituição da ordem religiosa” , que funda, em 1118, a ordem religiosa Pauperes Commilitiones Christi Templique Salomonis (“Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”), os Templários, que adotaram a divisa Non nobis, Domine, non nobis sed nomini tuo da gloriam (“Não para nós, Senhor, não para nós a glória, mas só em teu Nome”). Os Templários teriam recebido de Balduíno I (!) modestas acomodações do Templum Salomonis.
O próprio Hugues de Champagne teria juntado-se formalmente à Ordem dos Templários em 1125.
Fundada a Ordem, e após alguns anos de atividade discreta e até enfrentando dificuldades, Hugues de Payens, em 1126, teria viajado de Jerusalém para o Ocidente, a fim de recrutar novos cavaleiros e buscar apoio à nova Ordem.
BURMAN cita o Cartulário da Ordem que inicia com uma carta de Balduíno II (escrita, a julgar pela data de sua morte, ante de 15 de outubro de 1126) a São Bernardo, recomendado-lhe dois cavaleiros (Hugues de Payens e André de Montbard, tio do destinatário), pedindo-lhe que obtivesse a aprovação papal: “Os irmãos Templários, que Deus criou para a defesa de nossa província e aos quais concedeu proteção especial, desejam obter aprovação apostólica e também um Regra para governar suas vidas” .
Crê-se que a viagem de Payens foi exitosa, angariando fundos com doações de nobres e comerciante. Do Ocidente, teria enviado uma carta de encorajamento aos irmãos templários em Jerusalém, documento escrito em latim erudito, com constantes referências às Escrituras Sagradas, lançando o termo “monges-guerreiros” (salientando que, no entanto, deveriam ser mais clérigos que militares), apontando o demônio, senhor do orgulho e da ambição, como o responsável pelo enfraquecimento da vocação inicial dos cavaleiros, e enaltecendo a paciência, a humildade, a perseverança e a responsabilidade como caminhos da salvação.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
SÓU & PHORTES (um romance) 4
ATO III
O (AMOR)ROMANCE DE SÓU E PHORTES
(acende-se o canhão de luz sobre o VENTO, que entra suave)
VENTO
Aguardavam-se, aos prantos, durante horas
Apesar de encontros breves, sem demoras
Nos cultos, nos vultos na feira, nas vielas
Nas janelas... é que o amor implora!
Agonizavam enquanto ficava o dia
Em cujo suspiro profundo se escondia
O amor da tarde longa, e a longa espera...
Esperavam a cidade, tão alerta, se deitar
Para o amor da noite despertar, enfim
Embriagada no sereno...
Amor supremo, amor supremo...
Assim...
Sóu e Phortes, por noites a fio
Provaram do arrepio
Da paixão pura
Entregues ao mais sincero enlace
Era face a face
Que faziam juras...
Ficavam as estrelas a competir
E a noite a rir, e a noite a sorrir...
Pois que a lua já era conformada
Com o brilho dos dois dali
Se amando à luz...
Se amando à luz da madrugada.
Até com a luz da manhã, sua chegada
Indesejada, indesejada...
A urbe já era de novo de pé
De pé também o Chefe dos Pajens
Senhor bastante encrenqueiro
Que vivia, n’obstante, às margens
De amor tão célere, tão ligeiro...
Do romance da filha com o cavaleiro
(música um pouco mais tensa)
ATO IV
NA CALADA DA NOITE
VENTO
Mas já era o quê?
Noit’adentrada
Que Phortes vê,
Lá da estrada,
A amada bela
Não pôde crer
Tão esperada
Sentiu não ter
Uma escada
Pra chegar a ela
E para espanto
Da dócil donzela
O amante infanto...
Uma pedra na janela!
VOZ DE PHORTES (berrando)
Quando?
VOZ DE SÓU (berrando)
Como?
VOZ DE PHORTES (berrando)
Te amo!
VOZ DE SÓU (berrando)
Amanhã, nesta hora
VOZES DE AMBOS (despedindo-se)
Até!
VENTO
Phortes, ébrio da doçura,
Adormeceu ali na rua
Enquanto Sóu na maciez
De sua cama de burguês
(apaga-se o canhão de luz; o CAVALEIRO sai; o palco fica totalmente escuro e vazio; finda a música)
(som de grilos; acendem-se as luzes, Phortes está deitado no chão, dormindo. Entra o BICHO)
BICHO
Ora, ora
Mas que boa hora!
Se não é o jovem soldado
Herói tão bem falado
Seguidor da Cruz Senhora...
No entanto, agora
Enamorado!
Nasceu pra ser mandado
Com esse coração alado
Que esperneia e chora
Muito embora
Ser também amado...
Porém seu fado
É cair fora!
Enfiar a espora!
E cair fora!
(o BICHO sai de cena, correndo e gritando; PHORTES desperta do sono, e sai correndo)
ATO V
POEMA A DOIS DO DIA DEPOIS
(Música fúnebre, PHORTES, num canto do palco, no cavalo de pau, lamentando; luzes sobre ele)
PHORTES
Sim, é assim...
Assumo o medo
‘mbora cedo
Do meu fim.
Estimo-a mui,
Mas sei que fui,
Assim, de repente,
Mentiroso ao dizê-la,
Enfim,
“pra sempre”.
(apagam-se as luzes; SÓU na sacada, segurando um crucifixo, lamentando; luzes sobre ela)
SÓU
Não, não sei o que houve!
Encaras-me quieta, cruel cruz...
Cruzo respostas sem luz
E cá donde só a dor me ouve
Reparto lágrimas e razões.
O que fiz?
Por que não quis, ou sente
Ter-me assim,
Enfim,
Pra sempre?
(luzes sobre o personagem falante)
PHORTES
Não, nem sei
Somente sei
Qu’ainda a amo
Mas prefiro... partir
SÓU
Sim, só pode
Somente pode...
Será que me ama?
Será que volta?
(desesperada)
Por quê? Por quê?
Mil vezes por quê?
PHORTES
Sou da guerra
Sou do sangue
Sou de sangue
SÓU
Teria o meu!
PHORTES
Sou da terra
Sou da guerra
Sou de carne
SÓU
Teria a minha!
PHORTES
Tanto eu queria!
Mas justo não seria:
No amanhecer do dia
Eu haver partido.
“O que terá sido?”
Perguntaria.
Feitiço?
Bruxaria?
A razão do sumiço
Não saberia.
(PHORTES sai de cena)
SÓU
Mais bruxa que eu,
Não há quem seja! (gritando)
Melhor calar (acalmando-se)
Porque s’a Igreja
Desconfiar
‘Me esquarteja’
Mas Phortes, (novamente gritando)
Volte, porque te quero
Senão tua sorte
Senão tua morte
É o que espero!
(entra o COLIBRI, que fica dançando, girando pelo palco)
SÓU
Phortes, te rogo a praga! (gritando)
Colibri, mo traga
Este senhor
COLIBRI
És tu quem manda
Ó fada senhora
Quem sou eu para negar
Tua demanda?
Mas por que choras?
Por que estás a bravejar?
SÓU
É alguém que adoçou-me a boca
E agora parte, covarde!
Mas vá-te logo, ó muriçoca
Antes que seja tarde.
COLIBRI
Mas o que lhe digo?
Conto-lhe da maldição?
E se afugento-lhe ainda mais?
Que caminho sigo?
Mas que aflição!
Matarás o rapaz?
SÓU
Não sejas tolo,
Ó Beija-flor:
O seu consolo
É o meu amor
Traga-o por bem
Dê um jeito!
Se ele vem
Terá aconchego
No meu peito
Mas se não vir...
Ah, Colibri...
Parta já.
Haverás de lho alcançar...
COLIBRI
Com sua benção!
(despede-se, e sai cantando:)
Ó terras floridas
Ó campos sagrados
Protejam minha ida
Guardem meu reinado
Ó terras sagradas
Ó campos floridos
Minhas flores fechadas
Quando eu tiver ido
Ó pétalas cheirosas
Meus doces néctares
Quando estiver fora
Fechem seus lares
O (AMOR)ROMANCE DE SÓU E PHORTES
(acende-se o canhão de luz sobre o VENTO, que entra suave)
VENTO
Aguardavam-se, aos prantos, durante horas
Apesar de encontros breves, sem demoras
Nos cultos, nos vultos na feira, nas vielas
Nas janelas... é que o amor implora!
Agonizavam enquanto ficava o dia
Em cujo suspiro profundo se escondia
O amor da tarde longa, e a longa espera...
Esperavam a cidade, tão alerta, se deitar
Para o amor da noite despertar, enfim
Embriagada no sereno...
Amor supremo, amor supremo...
Assim...
Sóu e Phortes, por noites a fio
Provaram do arrepio
Da paixão pura
Entregues ao mais sincero enlace
Era face a face
Que faziam juras...
Ficavam as estrelas a competir
E a noite a rir, e a noite a sorrir...
Pois que a lua já era conformada
Com o brilho dos dois dali
Se amando à luz...
Se amando à luz da madrugada.
Até com a luz da manhã, sua chegada
Indesejada, indesejada...
A urbe já era de novo de pé
De pé também o Chefe dos Pajens
Senhor bastante encrenqueiro
Que vivia, n’obstante, às margens
De amor tão célere, tão ligeiro...
Do romance da filha com o cavaleiro
(música um pouco mais tensa)
ATO IV
NA CALADA DA NOITE
VENTO
Mas já era o quê?
Noit’adentrada
Que Phortes vê,
Lá da estrada,
A amada bela
Não pôde crer
Tão esperada
Sentiu não ter
Uma escada
Pra chegar a ela
E para espanto
Da dócil donzela
O amante infanto...
Uma pedra na janela!
VOZ DE PHORTES (berrando)
Quando?
VOZ DE SÓU (berrando)
Como?
VOZ DE PHORTES (berrando)
Te amo!
VOZ DE SÓU (berrando)
Amanhã, nesta hora
VOZES DE AMBOS (despedindo-se)
Até!
VENTO
Phortes, ébrio da doçura,
Adormeceu ali na rua
Enquanto Sóu na maciez
De sua cama de burguês
(apaga-se o canhão de luz; o CAVALEIRO sai; o palco fica totalmente escuro e vazio; finda a música)
(som de grilos; acendem-se as luzes, Phortes está deitado no chão, dormindo. Entra o BICHO)
BICHO
Ora, ora
Mas que boa hora!
Se não é o jovem soldado
Herói tão bem falado
Seguidor da Cruz Senhora...
No entanto, agora
Enamorado!
Nasceu pra ser mandado
Com esse coração alado
Que esperneia e chora
Muito embora
Ser também amado...
Porém seu fado
É cair fora!
Enfiar a espora!
E cair fora!
(o BICHO sai de cena, correndo e gritando; PHORTES desperta do sono, e sai correndo)
ATO V
POEMA A DOIS DO DIA DEPOIS
(Música fúnebre, PHORTES, num canto do palco, no cavalo de pau, lamentando; luzes sobre ele)
PHORTES
Sim, é assim...
Assumo o medo
‘mbora cedo
Do meu fim.
Estimo-a mui,
Mas sei que fui,
Assim, de repente,
Mentiroso ao dizê-la,
Enfim,
“pra sempre”.
(apagam-se as luzes; SÓU na sacada, segurando um crucifixo, lamentando; luzes sobre ela)
SÓU
Não, não sei o que houve!
Encaras-me quieta, cruel cruz...
Cruzo respostas sem luz
E cá donde só a dor me ouve
Reparto lágrimas e razões.
O que fiz?
Por que não quis, ou sente
Ter-me assim,
Enfim,
Pra sempre?
(luzes sobre o personagem falante)
PHORTES
Não, nem sei
Somente sei
Qu’ainda a amo
Mas prefiro... partir
SÓU
Sim, só pode
Somente pode...
Será que me ama?
Será que volta?
(desesperada)
Por quê? Por quê?
Mil vezes por quê?
PHORTES
Sou da guerra
Sou do sangue
Sou de sangue
SÓU
Teria o meu!
PHORTES
Sou da terra
Sou da guerra
Sou de carne
SÓU
Teria a minha!
PHORTES
Tanto eu queria!
Mas justo não seria:
No amanhecer do dia
Eu haver partido.
“O que terá sido?”
Perguntaria.
Feitiço?
Bruxaria?
A razão do sumiço
Não saberia.
(PHORTES sai de cena)
SÓU
Mais bruxa que eu,
Não há quem seja! (gritando)
Melhor calar (acalmando-se)
Porque s’a Igreja
Desconfiar
‘Me esquarteja’
Mas Phortes, (novamente gritando)
Volte, porque te quero
Senão tua sorte
Senão tua morte
É o que espero!
(entra o COLIBRI, que fica dançando, girando pelo palco)
SÓU
Phortes, te rogo a praga! (gritando)
Colibri, mo traga
Este senhor
COLIBRI
És tu quem manda
Ó fada senhora
Quem sou eu para negar
Tua demanda?
Mas por que choras?
Por que estás a bravejar?
SÓU
É alguém que adoçou-me a boca
E agora parte, covarde!
Mas vá-te logo, ó muriçoca
Antes que seja tarde.
COLIBRI
Mas o que lhe digo?
Conto-lhe da maldição?
E se afugento-lhe ainda mais?
Que caminho sigo?
Mas que aflição!
Matarás o rapaz?
SÓU
Não sejas tolo,
Ó Beija-flor:
O seu consolo
É o meu amor
Traga-o por bem
Dê um jeito!
Se ele vem
Terá aconchego
No meu peito
Mas se não vir...
Ah, Colibri...
Parta já.
Haverás de lho alcançar...
COLIBRI
Com sua benção!
(despede-se, e sai cantando:)
Ó terras floridas
Ó campos sagrados
Protejam minha ida
Guardem meu reinado
Ó terras sagradas
Ó campos floridos
Minhas flores fechadas
Quando eu tiver ido
Ó pétalas cheirosas
Meus doces néctares
Quando estiver fora
Fechem seus lares
ORDEM DE CAVALARIA 8
O INÍCIO
A origem da Ordem dos Cavaleiros do Templo é diretamente vinculada à Primeira Cruzada (1095-09), quando uma legião de cristãos partiu da Europa para o Oriente com o intuito de recuperar o Santo Sepulcro das mãos dos muçulmanos, que o tinha sob seus domínios havia mais de quatrocentos anos.
Foi no Concílio de Clermont, em 1095, que o papa Urbano II convocou os fiéis para uma guerra santa contra o Islão, “É Deus que o quer”, “Ide sob a égide de Cristo” . O papa teria recebido do imperador bizantino Aleixo I Comneno o pedido de ajuda militar contra os infiéis muçulmanos, contudo, muitos outros interesses, legítimos ou não, impulsionaram tanto primeira quantos as outras sete cruzadas, quais sejam, a possibilidade de saquear as cidades que eram tomadas no caminho, acumulando riquezas; de conquistar terras; ou de combater os odiados inimigos pagãos, etc.
Assim, partindo em 1096, e sob as lideranças de Roberto da Normandia, Godofredo de Bulhão, Balduíno da Flandres, Roberto II da Flandres, Raimundo de Tolosa, Boemundo de Tarento e Tancredo, os cruzados passaram “por Constantinopla, onde receberam o apoio do imperador bizantino, os cruzados sitiaram Nicéia; tomaram o Sultanato de Doriléia, na Ásia Menor; conquistaram Antioquia; e finalmente avançaram sobre Jerusalém, conquistada em 15 de julho de 1099, depois de um cerco de cinco semanas.”
Então, Godofredo de Bulhão (ou Bouillon) chefiou Jerusalém até sua morte, em 1100, quando seu irmão, Balduíno I, tomou o título de Rei de Jerusalém em 18 de julho daquele ano.
Jerusalém, por esta época, era um ilha cristã isolada dos condados cristãos de Antioquia e Edessa por vários emirados muçulmanos. O Reino Latino de Jerusalém era, pois, constantemente ameaçado por forças sarracenas que, apesar da derrota na Cruzada, ainda representavam considerável perigo. Além disso, bandos vindos da cidade de Ascalão ameaçavam os peregrinos cristãos que percorriam a estrada que ia de Java à Jerusalém.
Por ser uma “terra sem lei” e possuir áreas vazias em vários pontos da cidade, Balduíno I empreendeu uma política de povoamento em Jerusalém, dando incentivos à imigração e para a permanência dos peregrinos.
Seu primo e sucessor, Balduíno II, que recebeu aquela ameaçada Jerusalém em 1118, então aceitou a oferta de um grupo de cavaleiros dispostos a defender os peregrinos na estrada que unia Java a Jerusalém – linha vital de comunicação, dando origem à Ordem dos Templários.
Edward BURMAN aponta três historiadores que narram a fundação da nova Ordem por estes corajosos cavaleiros:
(1) o arcebispo Guilherme de Tipo, um veemente crítico dos Templários , que, cerca de 50 anos depois dos acontecimentos, relatou ter-se dado a fundação em 1118, quando Hugues de Payens e Geoffroi de Saint-Omer, juntos de outros nobres, fizeram os tradicionais votos da pobreza, castidade e obediência, e receberam do Rei de Jerusalém uma parte ao Norte do Templo do Senhor;
(2) o bispo de Acra (1217-1227) Jacques de Vitry, que teria ouvido a história do Grão Mestre dos Templários Pedro de Montaigu, e relatado mais de um século depois, que em 1119, eram nove os cavaleiros, que serviriam por nove anos, até o Concílio de Troyes (que lhes forneceu a Regra), em 1128; e
(3) o patriarca da Igreja Siríaca de Antioquia, Miguel, o sírio, relatou que após um trágico episódio às vésperas da Páscoa de 1119, quando cerca de 300 peregrinos forma mortos e 60 foram feitos prisioneiros por sarracenos de Ascalão, um grupo de trinta cavaleiros liderados por “Hou[g] de Payn”, recebeu do rei a Casa de Salomão para sua residência e algumas aldeias para seu sustento.
BURMAN rechaça a hipótese de haver qualquer razão mística, “conspiração secreta – ou um conhecimento recém-descoberto” no episódio da fundação, e enumera, citando Du Cange, os nomes dos supostos primeiros cavaleiros do Templo: Hugues de Payens, Geoffroi de Saint-Omer, André de Montbard, Gundomar, Godofroy, Roral, Geoffrey Bisol, Payen de Montdésir, e Archambaud de Saint-Aignan.
Contudo, o próprio BURMAN admite a hipótese da decisão de fundar-se a Ordem haver sido tomada ente 1113-15, quando Hugues de Champagne, suserano leigo de Hugues de Payens e grande proprietário de terras na França do século XII, esteve no Oriente. Hugues de Champagne, doador da terra para a fundação da abadia de Claivaux para (São) Bernardo, teria se encontrado com Payens em 1113, três anos antes de uma provável visita deste à Terra Santa (1116). BURMAN reconhece que o papel de Hugues de Champagne na fundação da Ordem do Templo permanece pouco claro.
Já o português Pedro SILVA defende que Hugues de Champagne esteve com São Bernardo em 1114, quando arquitetaram os fundamentos da futura ordem. SILVA, ainda, aponta Pay[e]ns como a “última vértice do triângulo fundamental nos primórdios da constituição da ordem religiosa” , que funda, em 1118, a ordem religiosa Pauperes Commilitiones Christi Templique Salomonis (“Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”), os Templários, que adotaram a divisa Non nobis, Domine, non nobis sed nomini tuo da gloriam (“Não para nós, Senhor, não para nós a glória, mas só em teu Nome”). Os Templários teriam recebido de Balduíno I (!) modestas acomodações do Templum Salomonis.
O próprio Hugues de Champagne teria juntado-se formalmente à Ordem dos Templários em 1125.
Fundada a Ordem, e após alguns anos de atividade discreta e até enfrentando dificuldades, Hugues de Payens, em 1126, teria viajado de Jerusalém para o Ocidente, a fim de recrutar novos cavaleiros e buscar apoio à nova Ordem.
BURMAN cita o Cartulário da Ordem que inicia com uma carta de Balduíno II (escrita, a julgar pela data de sua morte, ante de 15 de outubro de 1126) a São Bernardo, recomendado-lhe dois cavaleiros (Hugues de Payens e André de Montbard, tio do destinatário), pedindo-lhe que obtivesse a aprovação papal: “Os irmãos Templários, que Deus criou para a defesa de nossa província e aos quais concedeu proteção especial, desejam obter aprovação apostólica e também um Regra para governar suas vidas” .
Crê-se que a viagem de Payens foi exitosa, angariando fundos com doações de nobres e comerciante. Do Ocidente, teria enviado uma carta de encorajamento aos irmãos templários em Jerusalém, documento escrito em latim erudito, com constantes referências às Escrituras Sagradas, lançando o termo “monges-guerreiros” (salientando que, no entanto, deveriam ser mais clérigos que militares), apontando o demônio, senhor do orgulho e da ambição, como o responsável pelo enfraquecimento da vocação inicial dos cavaleiros, e enaltecendo a paciência, a humildade, a perseverança e a responsabilidade como caminhos da salvação.
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