terça-feira, 19 de abril de 2011

EXECUÇÃO FISCAL. APELAÇÃO. EFEITO TRANSLATIVO.

Cuida-se de embargos à execução fiscal em que se apontou mais de um fundamento para a nulidade da execução, mas, na sentença, foi acolhido apenas um deles para anular a certidão de dívida ativa (CDA). Ocorre que, na apelação interposta pela Fazenda Estadual, julgada procedente, o tribunal a quo limitou-se a analisar o fundamento adotado pela sentença, deixando de examinar as demais questões argüidas pela embargante em sua inicial e reiteradas nas contrarrazões da apelação. Opostos os declaratórios objetivando suprir tal omissão, eles foram rejeitados ao entendimento, entre outros temas, de ser necessária a interposição de apelo próprio para devolver ao tribunal as questões não apreciadas pelo juízo. No REsp, a recorrente alega, entre outras questões, violação do art. 535, II, do CPC. Para o Min. Relator, por força do efeito translativo, o tribunal de apelação, ao afastar o fundamento adotado pela sentença apelada, está autorizado a examinar os demais fundamentos invocados pela parte para sustentar a procedência ou não da demanda (§ 2º do art. 515 do CPC). Portanto, na espécie, quando os embargos à execução fiscal trouxeram mais de um fundamento para a nulidade da sentença e o juiz só acolheu um deles para julgá-los procedentes, a apelação interposta pela Fazenda estadual devolveu ao tribunal a quo os demais argumentos do contribuinte formulados desde o início do processo. Assim, ainda que fosse julgada procedente a apelação da Fazenda, como no caso, aquele tribunal não poderia deixar de apreciar os demais fundamentos do contribuinte. Ademais, o exame desses fundamentos independe de recurso próprio ou de pedido específico formulado em contrarrazões. Dessarte, concluiu que a omissão da análise dos demais fundamentos invocados pela parte embargante, aptos a sustentar a procedência dos embargos e a extinção da execução fiscal, importou violação do art. 535 do CPC. Com essas considerações, a Turma deu provimento ao recurso para anular o acórdão que apreciou os embargos de declaração, determinando o retorno dos autos ao tribunal de origem para que sejam analisadas as questões. Precedente citado: REsp 493.940-PR, DJ 20/6/2005. REsp 1.201.359-AC, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, julgado em 5/4/2011.



NELSON LUIZ PINTO (in Manual dos recursos cíveis. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2001), ocorre "Efeito translativo quando o órgão ad quem julgar fora do que foi pedido, sendo normalmente questões de ordem pública, que devem ser conhecidas de ofício pelo juiz” (g.n.), ou seja, é a possibilidade do juízo ad quem, quando do julgamento do mérito do recurso, decidir sobre matérias outras além daquelas argüidas pelas partes no recurso, em especial aquelas de ordem pública.



domingo, 17 de abril de 2011

SAMBETO DE UMA NOITE SÓ

Dentre coloridas silhuetas, lha vi crua


Pobrezinha, chorando só, vazia mesa

Minha face borrada, sem classe – fez-se nua

Rezei discreto, clamei quieto sua beleza



Porque a moça que [sentada] ali sofria

Da noite dos meus sentidos ordenou dia

Sem contudo o galo [um contato] ‘inda cantara

Tampouco o sol, olhos para mim, desse as caras



O encanto que escorria em suas lágrimas

Eram frases preenchendo tantas páginas

- Folhas d’um livro d’insultuosa dor

Que eu queimaria em intenso fogo [meu amor]



Parei diante dela. Viu-me o vulto

Perguntei-lhe, rubro, se queria conversar

Questionou-me, só por dizer, “mas que assunto?”

Respondi-lhe: “Sei lá, reis, ministros, algum czar!”



Ela então, curiosa, olhou para cima

E seus olhos se esbarraram nos meus

Não há, doutor, rima que exprima

Nem prosa, aquilo que se deu:



Virei pierrô em noites de bandalheiras

Ela, estrelas, brilhava como tais

Nascente paixão sem eira nem beira

Pularia, imensa, mais de mil carnavais



Rei e rainha, deslizávamos pela pista

Eu bebia os suspiros dos seus lábios

Fomos prima-obra d’um Bom Artista

- Criação acabada. Ligado o rádio:



Sinfonias inebriantes que vinham

Escorregando pela noite inocente

Acordes s’inventavam, logo sumiam

Da magia que embebedava a gente



Para meu orgulho, seu moço, era a mais bela

Vermelha boca, castanhos olhos felinos

Que o menos crente, fraco, se estatela

No chão do absurdo, seu rosto lindo



Os minutos corriam mais que nossos pés

E nós, loucos, fazíamos rodízio d’humores

Invadíamos pares e belos quadros, ao invés

De só sentar, beijar em sonho, mastigar flores



O amanhecer [que ódio!] veio tão cedo

E ela, no portão do baile, olhou pra trás

E em não a rever, fez-se em mim tanto medo

Gritei: “Ei, moça, não te verei mais?”



Ela sorriu, sacudiu os ombros destampados

Eu pude vê-la, não um anjo, mas mulher

“Espera o destino; se ele acaso quiser...”

Chorei então torto, gargalhei errado



Porque a moça que [partiu!] dali não se via

Não sabia, distraída, o que portava:

Levara consigo minha mais minha fantasia

O Romeu, até então hiberno, despertara



O caminho lá pra casa demorou tanto

De repente não seria lá o meu final

A beleza viva da rua morta causou-me espanto

Era amor ou só encanto de carnaval?



tic-tac tic-tac tic-tac… cuco – cuco – cuco três da tarde



Esgotado da ternura do seu cheiro, então dormi.

Minhas mãos acordaram ainda em perfume

Na lembrança dela, sua ausência, daí sofri

Pois foi ela em minha noite escura, mil vaga-lumes

MAIS DO QUE (A)PARECE


Às

suas atitudes, preces, pitadas

de compreensão



Tristeza -

entendo a sua, com fusão

de quase gosto e ansiedade



No céu, chão de reflexos

em ti, ali vi o meu

com ou sem solo

A MULHER DO MALANDRO

satisfeito, abandonou o leito

_Que foi, cansaste de mim?

parou à porta, voltou-lhe os olhos.

_Arrependeste?

_Escuta, ô peste!

_Me usas, covarde!

cerrou os punhos.

_Vai-te, vai-te...

_Sim, vou-me indo...

_Mas não pense... se é que...

!

_Covarde! É o que és.

ela ficou roxa

_Filho de uma...

ele saiu, nem ouviu


pulou o gato


freou o carro


gemeu a cama


bateu a porta

ouviu-se os passos

_Voltaste? Seu traste!

_Cala-te!

_Vem, então, se és...

e foi indo c’o dia saindo


e deixando, a mulher do malandro...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MERCHANDISING: A lenda do Teatro Carlos Gomes


O advogado Fernando Henrique Becker Silva lançou seu romance policial intitulado O Segredo do meu Avô. Na obra é narrada a história, um boato, de que o Teatro Carlos Gomes teria sido construído para receber Adolf Hitler e que, como alternativa para o Fuhrer, deles partiriam vários túneis secretos para diversos pontos de Blumenau.

“Este é um romance policial infanto-juvenil que explora esta famosa lenda urbana que intriga e instiga a curiosidade de jovens há várias gerações”, afirma Fernando.

Desde 1991, quando o autor mudou-se para Blumenau, a lenda do Teatro Carlos Gomes sempre o intrigou. “Estupefato, decidi que um dia escreveria sobre o assunto”.

“O principal objetivo é incentivar a leitura e despertar o interesse pelo estudo da história no público infanto-juvenil, para o que procurei atrai-lo através da (talvez maior) lenda urbana blumenauense. Outro propósito foi percorrer - ainda que não se trate de um livro autobiográfico - sobre a encantadora cidade em que cresci. O que se fazia, o que acontecia... É uma homenagem que faço a Blumenau”.

Fernando Henrique Becker Silva é formado em direito e atualmente atua como advogado e professor universitário. Natural de Florianópolis, reside em Blumenau desde 1991. É advogado, professor universitário e escritor.

Seus escritores preferidos são Érico Veríssimo e Gabriel Garcia Márquez. Além de O Segredo do meu Avô, Fernando publicou outros dois livros de história: Fraternidade, em 2002, e Zur Friedenspalme, em 2005; além dos romances Aprendiz de Cavaleiro e Caranapá e o Povo sem Sono.

“Desde que aprendi a ler e a escrever, sonhava em ser escritor. Tanto que, aos sete anos de idade, rascunhei meu primeiro livro, um romance ambientado no Velho Oeste. Desde então, sempre me preparei - lendo tudo que caía em minhas mãos - para me tornar um escritor”, afirma.

Quando questionado sobre a participação de sua família no gosto pela cultural, Fernando é incisivo. “Desde sempre meus pais me ensinaram, pelo exemplo, a importância da leitura na formação intelectual. Além disso, a biblioteca da casa de meus pais sempre foi muito rica. Sempre ouvi que a educação e a cultura seriam minha única herança”.

Apesar de ser um romance policial infanto-juvenil, o livro é indicado para adolescentes e adultos não apenas de Blumenau, mas de todo o Brasil. Apesar de ser ambientado em Blumenau (e aqueles que não a conhecem podem ver imagens de cenários citados no livro através do site www.osegredodomeuavo.com.br), o romance trata de dilemas enfrentados por jovens do mundo todo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A GRAVATA COMPRIDA

No dia e hora combinados, sentei-me diante de ninguém menos que Josué Häagen. Sim, ele mesmo! O próprio! Quem, um dia, me imaginaria aqui!? O tema da entrevista era as lições que ele obtivera ao longo da vida e que fizeram dele um dos mais respeitados empresários da siderurgia do Brasil e um dos mais prestigiados empreendedores do mundo. Por ter chegado mais cedo que o previsto (o trânsito, estranhamente, estivera a meu favor naquela manhã), pude reler com calma todo o extenso material que comecei a colher havia três semanas a respeito do entrevistado.

_ O senhor é filho de imigrantes... – comecei, um pouco nervoso.

O Sr. Josué foi encantadoramente receptivo e objetivo:

_ Sim, meus pais chegaram ao Brasil em 1946, fugindo da guerra. Mal falando nosso idioma, meu pai começou a exercer no Brasil a mesma atividade que desenvolvia na velha vida: era alfaiate (e dos melhores!). Com muito trabalho, fazia questão de proporcionar a mim e aos meus irmãos um estudo de qualidade. Estudávamos no mesmo colégio que os filhos dos ricos clientes de meu pai, que, sabendo desta minha condição, não raro me humilhavam e me esnobavam. Meu pai, descobrindo a razão do meu desânimo em ir para a escola, teve uma idéia que mudou minha vida: costurou-me uma gravata que, todos os dias, fazia questão de fazer-me o nó. Naquele tempo, a gravata fazia parte do nosso uniforme escolar. Mas a gravata que meu pai me fez era um pouco comprida demais. Especialmente comprida. Disse-me ele: “Não há no mundo coisa mais feia que um homem deselegante. Não podes, assim, deixar que a ponta da gravata fique abaixo da fivela do cinto!”. E assim fui eu com minha gravata comprida em direção à escola, esticando-me todo para não deixar a ponta descer do nível da cintura. Minha nova postura, é óbvio, causou estranheza aos demais alunos, que quiseram rir de mim. Mas esta minha nova postura, que não me permitia baixar a cabeça, foi me dando aos poucos uma sensação de força, de poder e de autoconfiança tamanhas que meus colegas de colégio logo se calaram, depois me olharam diferente, em seguida passaram a me respeitar e, antes do final daquele ano, já era bem quisto e admirado por todos.

Os olhos do empresário brilhavam.

_ Desde então – continuou – jamais me curvei novamente diante da dor, do medo, das dificuldades ou das pessoas. Hoje, nem a gravata nem meu pai existem mais, mas ambos permanecem ardendo no meu peito.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

BLOG (DIGA-SE, OBRA) IMPERDÍVEL

Recomendo-lhes o blog http://quadrinhosblumenau.blogspot.com/ , do artista blumenauense e meu amigo ALEX GUENTHER .

Segue matéria inaugural:

"Projeto Revista em quadrinhos "OS XOKLENG"

O projeto da revista em quadrinhos "Os Xokleng" teve iníco a partir do ano de 2007, objetivando a continuidade de meu trabalho em fazer o resgate histórico da região do Vale do Itajaí através de revistas em quadrinhos. Com o término das revistas "O Desbravador" e "Vale dos Imigrantes", percebi que uma nova oportunidade surgia para apresentar a versão dos índios sobre os conflitos decorridos da colonização alemã e italiana no Vale do Itajaí. Comecei a coletar as informações gerais sobre a população índigena, primeiramente em sites especializados e posteriormente na biblioteca Fritz Müeller de Blumenau. Os livros mais pesquisados foram do autor "Silvio Coelho dos Santos", famoso antropólogo e historiador, grande conhecedor da população Xokleng. Alguns meses de pesquisa se deram, com muita leitura, anotações assim como a pesquisa visual dos personagens. Decidi então colocar o máximo de informações verídicas no livro, utilizando personagens reais porém, misturando a trama com algumas lendas e entrelaçando algumas histórias isoladas dentro da revista. O roteiro foi produzido para 58 páginas com muita ação, história e como sempre uma pitada de humor! Após esta etapa de roteirização da história, o próximo passo foi realizar os esboços de cada página, onde cada quadrinho se encaixa conforme sua importância na página. Todas as páginas então foram desenhadas em folhas A3 e arte finalizadas a nanquim, para depois serem digitalizadas e montadas como um livro padrão. Optei por fazer a revista em preto e branco pelo custo mais baixo de produção e também pelo contexto artesanal que a revista possui. Com o término do livro, a primeira coisa que fiz foi procurar pelo professor "Silvio Coelho"para lhe a presentar o trabalho. Somente iria seguir adiante com o projeto se tivesse sua correção e aprovação, considerando o grande nome que este representa na área. Não só corrigio como também me fez uma carta introdutória da qual apresenta na primeira página da revista. Segue ela abaixo:

"A saga vivida pelo povo indígena Xokleng em seu contato com os brancos está sendo magníficamente relatada por Alex Leonardo Guenther na forma de História em Quadrinhos. Alex é um jovem publicitário, egresso da Universidade Regional de Blumenau, que está preocupado em se relacionar com crianças e adolescentes narrando histórias e tradições regionais. Já publicou “O Desbravador – a Fundação da Colônia Blumenau” (2006) e “Conhecendo o Museu da Família Colonial” (2006). No prelo estão “Vale dos Imigrantes” e “Oktoberfest – origens e tradições”, ambos acabados neste início de 2007. E agora este novo livro recupera uma boa parte da história do povo Xokleng e do próprio Vale do Itajaí.

Como se sabe, os Xokleng habitavam uma grande área coberta pela floresta tropical (Mata Atlântica), que se estendia desde as proximidades de Curitiba até a altura de Porto Alegre. Para o Oeste, esses índios alcançavam a região de Porto União e Calmon, onde mantinham disputas com os Kaingang objetivando o domínio dos bosques de pinheiros, onde havia, além do pinhão, uma variedade enorme de animais e de aves que eram a base da sua alimentação. Nos vales que se localizavam entre o litoral e o planalto, os Xokleng também exploravam variada fauna e realizavam a coleta de mel, de frutas silvestres, de palmito e de outras tantas plantas e raízes.No dia-a-dia conviviam com a natureza e dela tiravam o que necessitavam para sobreviver. Durante séculos sua condição de nômades caçadores e coletores se reproduziu de geração em geração sem maiores transtornos. Com a chegada dos homens brancos, entretanto, tudo começou a mudar.

O contato entre os Xokleng e os brancos foi trágico. Sistematicamente seu território foi sendo conquistado pelos imigrantes que chegavam. Ocorreram diversos episódios sangrentos, envolvendo vítimas de parte a parte. Contatados por Eduardo Hoerhan, agente do Serviço de Proteção aos Índios, aos poucos os índios foram se adaptando a convivência com os novos senhores de seu território. Hoje, os descendentes vivem em maioria na Área Indígena de Ibirama, no alto Vale do Itajaí. A sua identidade indígena é constantemente reafirmada, o que contribui para a manutenção de suas tradições.

É esta trajetória que liga passado e presente no Vale do Itajaí que Alex traz para nós, crianças e adultos, ajudando-nos a nos situar no complexo mundo em que vivemos."


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

BRAD - a história de amor entre um cão e uma família

* este texto eu escrevi muito antes do livro "Marley e Eu" (acho até que o cara me copiou) De qualquer forma, desde que o escrevi nunca tive coragem de relê-lo (ou corrigi-lo). Publico-o como saiu.

I

Se entre as pedras dos jardins surgissem fadas madrinhas com seus mágicos poderes de fazer o impossível e, se dispostas a satisfazer nossa curiosidade, transformassem em gente os cachorros, teríamos uma oportunidade de ouro para trocar uma idéia com estes nossos grandes amigos – apesar das palavras serem, entre nós e eles, absolutamente dispensáveis.

E se estas fadas pousassem naquela casa de quintal cercado por um verdejante matagal, e com suas varinhas de condão apontassem para o sexto filhote daquela ninhada de cockers spaniel, daquele cachorrinho cor de caramelo surgiria uma criança alegre e travessa. Caçula, brigava por um espaço entre os irmãos para amamentar na paciente mamãe cocker. O pai, zeloso, percorria o quintal com suas longas orelhas a sondar e refutar qualquer sinal de perigo que se aproximasse de suas crias.

E vencidas as primeiras semanas de vida daquele sexteto sapeca, os pais choraram ao ver partir, um a um, os filhotes já desmamados e vacinados rumo ao destino que o Deus dos homens e dos cães lhes havia reservado.

E o mais novo deles se despedia, às lambidas e sem bem entender a razão do pesar no peito, dos irmãozinhos que partiam aos prantos. Cada um que se ia, era um vazio no coração, mas um espaço a mais no aconchego da mamãe, que uivava muda às noites.

O filhotinho, que agora dividia a atenção dos pais com apenas uma irmãzinha, crescia rapidamente, com seus olhos curiosos e espírito aventureiro – corria atrás das galinhas a ciscar no quintal, tomava sustos com a mangueira que irrigava as verduras por ali plantadas, e ganhava o dia ora sob a sombra do pai de orelhas grandes, ora aporrinhando a vida da mãe, exigindo carinho.

Eis que um dia parou na frente do portão de ferro um carro branco, donde desceu um jovem casal. O pequenino instintivamente se pôs entre as patas da mamãe, que latia desesperada. O coração do pobre acompanhava o acelerado da mãe, que sentia se aproximar o momento da partida de mais um filhote. A estranha então se acocorou e falou qualquer coisa de forma tão doce e carinhosa, que o pequeno cocker encorajou-se e deixou a segurança da mãe atraído por sua encantadora voz. Ela segurou o cãozinho que, tamanha sua pequeneza, coube numa palma. Um sorriso sintonizado entre o casal foi o sinal que selava a certeza: estava escolhido o presente de aniversário de Zezinho.

Não haveria fada madrinha que atenuasse a dor da mamãe cocker ao ver seu filhote mais novo e indefeso partir nos braços daquela gente.

II

Zezinho não via a hora de pegar no sono para que a manhã seguinte chegasse logo, para finalmente poder ver os presentes. Apesar dos setes pintados, sabia que havia se comportado o ano inteiro e por esta razão receberia muitos deles. Os pais vieram ao quarto do menino e juntos rezaram a Deus. Quando a mãe, após a benção e o beijo de boa-noite, estava apagando a luz do quarto, ouviu um último suspiro do filho:

_ Papai do Céu, sinto tanta falta de um amigo...

A porta do quarto se fechou e os pais se congratularam pelo acerto da escolha.

O silêncio da manhã do aniversário, um domingo, foi quebrado pela correria do pequeno José pela casa, procurando despertar o mundo para a abertura dos presentes. Todos postos e dispostos na sala, os primeiros presentes – meias, pijamas, etc. – decepcionaram o menino. E quando tudo parecia terminado, restava uma caixa de papelão com alguns furos num canto do cômodo. Zezinho sequer reparara nela, até quando a mesma passou a sacudir-se sozinha. A primeira reação foi de susto, depois medo, após curiosidade, enfim ação: puxou, após o gesto de consentimento da mãe, o laçarote vermelho que lacrava o presente, e ao levantar a tampa da caixa permaneceu imóvel, boquiaberto, surpreso, estupefato, encantado...

_ Um cachorrinho!

Seus olhos se encheram de lágrimas e não teve a audácia, num primeiro instante, de segurar o presente. Coube à mãe a tarefa de retirar o tímido e sonolento cãozinho da caixa e apresentá-lo ao dono:

_ Este aqui é o Zezinho, seu novo amigo – disse entregando-o ao filho – E como iremos chamá-lo?

_ Brad! – Zezinho disse quase sem pensar.

_ Brad... – sussurraram a mãe, o pai, os avós e os tios.

_ É um nome bonito. – concluiu a vózinha.

III

Brad foi a alegria do dia, da semana, do final do ano e das férias de verão. Ainda tinha pêlos de filhote, seu xixi era apenas uma gotinha e sequer erguia a patinha traseira para faze-lo. Ainda não sabia correr, e ao tentá-lo para acompanhar Zezinho acabava tropeçando em si mesmo ou nas próprias orelhas; e por falar nestas, sempre que bebia água em seu pequeno pote, terminava por encharcá-las.

Brad jogava (ou pelo menos tentava) bola com os meninos na rua; era o neném das meninas da vizinhança que brincavam de casinha; era o companheiro do pai nas caminhadas matinais e companhia para a mãe nas tardes de chuva com tricô. Zezinho confidenciava-lhe os seus maiores segredos, compartilhava seus receios, dividia-lhe os sonhos e pedaços (escondidos) de pão. Brad se mostrava o amigão que pedira a Deus e era a diversão para toda a família. Se a fada madrinha aparecesse por ali, daria conta de um menino como Zezinho, educado, brincalhão e curioso.

Mas se durante o dia o cãozinho era impossível, às noites era um terror: Brad não se acostumava a ficar sozinho de maneira alguma – permanecia, teimoso, cochilando sobre os pés do último a se recolher, e quando era posto em sua casinha toda enfeitada, punha-se a latir e a chorar um choro tão triste que sempre comovia os pais de Zezinho, que o levavam para dormir em seu próprio quarto, porque o filho sofrera de bronquite quando bebê.

E assim, durante aquele verão na praia, Brad dormiu todos os dias no quarto dos pais, no início despertando-os nem bem nascia o sol, mas, com o correr dos dias e deixando-se contagiar pela preguiça da família, passou a ser o último a se levantar.

No final do verão e às vésperas do retorno à rotina, ninguém mais imaginava aquela família sem seu membro mais novo e, diga-se, canino.

IV

Os primeiros dias de aula foram bastante sofridos, primeiro porque Zezinho não estava mais acostumado a acordar cedo, segundo porque andara descalço ou de chinelo o verão todo, e terceiro porque Brad não podia o acompanhar na aula.

Mas o bom amigo ia com ele até o portão todo santo dia e, como se tivesse um relógio em pulso, se punha a postos para recebe-lo precisamente ao meio-dia e quinze, com pulos desesperados e lambidas de saudade.

Durante a manhã, andava como uma sombra da mãe, como que a pergunta-la o tempo inteiro o que estava fazendo. Ela conversava alegremente, narrando minuciosamente cada passo da receita que seguia na preparação do almoço ou de um bolo para o café da tarde. E Brad ficava acompanhando, com seus olhos de “pidão”, cada palavra da mãe. E nas manhãs mais cinzentas, naquelas em que o vento parece apertar o coração e uma lágrima brotava nos olhos da mulher, Brad enxugava-lhe o rosto com sua língua comprida e não sossegava enquanto não via um sorriso posto no lugar do pranto.

Durante as tardes, Brad era vítima das travessuras de Zezinho, ora sendo cachorro de pirata, ora cachorro de soldado, de astronauta, caçador ou de super-herói (com direito a capar e tudo o mais). E quando Zezinho cansava, era Brad que reclamava ação, arrancando o menino do marasmo ou do descanso.

Na boca da noite, Brad pulava nas pernas do pai enquanto este, na boca da mãe, era bem vindo. E Brad não descansava enquanto não recebia um carinho especial, uma chacoalhada nas orelhas ou uma coçada na barriga ou nas costas.

Jantava a família e Brad os acompanhava ao pé da mesa, como que querendo participar da conversa, dar sua opinião, protestar contra o aumento dos preços, reclamar do tempo ou comentar o resultado do futebol. E quando as luzes da casa iam se apagando, lá ia Brad para seu cantinho no quarto do casal.

Não podiam perceber como já havia crescido – aprendera a correr, comportar-se diante das visitas e a fazer cocô e xixi no local certo (e não mais dentro de casa) – e o quão bom era tê-lo por perto.

V

Eis que chegou o inverno e com ele o frio. Com o frio vieram os calafrios sentidos por Brad. A mãe providenciara uma roupinha de lã para o friorento cachorrinho, que arrancou gargalhadas da meninada e por esta razão Brad se recusava a vesti-la novamente.

Zezinho, não raro, acolhia-o em seu quarto com aquecedor, mas o cãozinho ali não se sentia confortável para suas longas horas de sono, e um dia o casal foi surpreendido com Brad em cima da cama, enroscado na coberta, dormindo a seus pés. E fazia tanto frio naquela noite, e nas noites seguintes, que não tiveram coragem para expulsa-lo dali. E Brad passou a dormir sobre os pés do casal.

Quando Brad voltava do pet-shop, parecia um homenzinho vaidoso: vinha engravatado, cheiroso, desfilando pela rua e arrancando suspiros apaixonados das cadelinhas da vizinhança (e ciúme dos machos). Ele tinha o péssimo hábito de provoca-los quando na companhia de Zezinho ou do pai: latia, esbravejava, enfrentava. Mas era só se ver sozinho, desprotegido, que caminhava cabisbaixo, em silêncio e em respeito.

Aliás, se Brad parecia e agia como gente do portão para dentro, para fora era um cachorro como outro qualquer: corria atrás dos carros, das motos, das bicicletas, dos carteiros..., cheirava e se deixava cheirar, metia-se em brigas e confusões e depois voltava para casa, faceiro, como se nada tivesse acontecido.

VI

Certo dia, Zezinho encrespou-se na escola com um menino mais velho, da rua de cima e dono de um pit-bull. O rapaz e seu cão então vieram até o portão da casa numa tarde em que a mãe foi fazer compras. Zezinho, após um sermão na hora do almoço, foi até o desafeto para pedir-lhe desculpas, não sendo porém atendido, mas agredido.

E lá do fundo do quintal partiu Brad ensandecido, pulando na canela do moleque e depois sobre seu bravo cachorro de guarda. A briga foi feia, sem vencedores ou vencidos, até ser apartada pelos vizinhos e transeuntes.

Mas Brad, todo machucado, revelou-se corajoso e companheiro, não deixando seu dono e amigo na mão.

Naquela noite, ambos tiveram febre, e ficaram sob a vigília dos pais.

Outro dia, Brad apareceu com uma cobra morta na boca, matada do jardim. Outra vez, latiu até ser descoberto pelo pai um ninho de aranhas caranguejeiras na garagem. Brad era o herói da meninada, muito admirado e querido por todo mundo.

VII

Até que um dia surgiu a notícia de que a mãe esperava um outro filho. Nem Brad nem Zezinho puderam compreender a dimensão daquela novidade, mas diante da felicidade que os pais demonstravam, coisa ruim não haveria de ser.

A mãe ia ficando cada vez mais barriguda e as atenções se voltavam para a chegada do quinto membro da família, o que despertou ciúmes nos dois velhos amigos.

Por recomendações médicas, Brad não pôde mais dormir no mesmo quarto do casal e, por birra, acomodou-se mal humorado num canto da área de serviço, entre a lavadora de roupas e o tanque. E porque frio o lugar, Brad contraiu uma pneumonia grave, curada mediante um tratamento longo e intenso, que fez notar que era ainda muito amado.

Zezinho também aprontou das suas para chamar a atenção dos pais: voltou a fazer xixi na cama, incomodava a professora na escola e virou “respondão” em casa.

Os pais sabiamente souberam contornar e relevar aquelas atitudes dos dois, explicando-os que jamais deixariam de amá-los e que o novo irmãozinho seria mais um motivo de alegria na vida de todos.

E assim o foi: Cininho nasceu numa primavera, na mesma época em que Brad completaria três aninhos e Zezinho oito.

Obviamente o neném demandava cuidados nos primeiros meses de vida, e Brad e Zezinho souberam respeitar seu espaço. Brincavam os dois durante horas a fio e, volta e meia, acompanhavam o pai em passeio e piqueniques para empinar pipa. Foram dias felizes.

VIII

Eis que Brad arrumou uma namorada. Sim, uma cocker também caramelo chamada Brenda. Charmosa, manhosa, dengosa, cativou o amor do nobre cachorrinho desde o primeiro momento que a viu, quando seus donos se mudaram para perto dali.

No princípio apenas trocaram olhares, depois cheiros e, com o consentimento de todos, logo estavam esperando os primeiros “netinhos” do casal.

Brad se mostrou um pai atencioso e um “marido” carinhoso, mas nem por isso deixou de retribuir o amor recebido por sua família: continuava sendo o melhor amigo de Zezinho, parceiro do pai e companheiro fiel da mãe. E também o afeto de Cininho conquistara – Brad ficava horas zelando seu sono, acompanhava seus banhos de sol, e não brigava quando o bebê vinha mexer na sua comida.

E assim, a família foi vivendo feliz.

(este é o final feliz da história)

IX

Quando Cininho já tinha idade para ir ao jardim de infância, Zezinho já tinhas seus compromisso de menino, e Brad sofreu de saudades de seus “protegidos”. A casa parecia agora tão grande e vazia durante as manhãs que Brad não suportava dentro dela ficar.

E um dia Brad se pôs doente. Amuado, vivia pelos cantos dormitando ou em silêncio. Todos ficaram preocupados com sua saúde, e os veterinários não encontraram explicação médica para aquele sofrimento.

E a medida que os dias foram passando, o estado de saúde de Brad foi piorando, até que tiveram que intervir.

O pai levou Brad para a clínica, para submete-lo a uma cirurgia de emergência. Quando o carro branco partiu, ficaram a mãe, Zezinho e Cininho aflitos abraçados no portão. Brad se esforçou e olhou-os pelo vidro da janela do carro com seus tristes olhos de “pidão”, como a lhes agradecer pela vida repleta de felicidade que lhe haviam proporcionado.

À noite, quando o pai voltou para casa, todos correram para rever o amigo, mas si encontraram o pai, com os olhos vermelhos de tanto chorar.

Brad não voltaria mais para casa. Pela primeira vez os meninos experimentavam a dor da perda. A perda do melhor amigo.

O pai explicou-lhes que a morte faz parte da vida, e que Brad tinha cumprido sua maior missão, que era de ter-lhes feito muito felizes. A mãe lhes disse que ele deveria estar agora vivendo no “Céu dos Cachorros”, onde se tem muitos ossos para roer, muitas bolas para brincar, e onde os anjos andam de bicicleta o tempo todo. Lembrou-lhes ainda que um pedacinho de Brad estava em cada um de seus filhotinhos, que logo teriam seus filhotinhos e assim, em breve, teria uma multidão de Brads por aí.

Naquela noite, ninguém teve fome e todos foram mais cedo para suas camas, não para dormir, mas para chorar sua dor.

E a lembrança daquele cachorro amigo, alegre, brincalhão e atrapalhado percorreria cada cômodo da casa por muitos anos, mas ficara impregnada eternamente no coração de cada um dos membros daquela família.

E se a fada madrinha pudesse transforma-lo em pessoa, certamente seria um homem íntegro, honesto, fiel, leal e, acima de tudo, um amigo de verdade.


Mas se entre as pedras dos jardins surgissem fadas madrinhas com seus mágicos poderes de fazer o impossível, eu pediria, do fundo de meu coração, que trouxesse o Brad de volta.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

PARTICIPAÇÃO NO PROGRAMA JUSTIÇA PRESENTE


TRÊS JOGOS PELAS SÉRIES B, C E D DO BRASILEIRÃO RECEBEM O JUSTIÇA PRESENTE
 
fonte: http://app.tjsc.jus.br/noticias/listanoticia!viewNoticia.action;jsessionid=3877BF318CFB66A174C69B239C217C91?cdnoticia=21596


O programa Justiça Presente, iniciativa do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, com o apoio de outras instituições e entidades (MP, OAB, Polícia Militar e Civil e Federação Catarinense de Futebol), voltará aos estádios no domingo, 22/8, e na terça-feira, 24/8, para acompanhar três partidas, válidas pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, Séries B, C e D.

*Pela Série C - Chapecoense x Criciúma, às 16h, no estádio Índio Condá, em Chapecó: juíza de direito Lizandra Pinto de Souza, promotor de Justiça Benhur Poti Betiolo, advogados Adriana Maria Gottardi, Patrícia Vasconcellos de Azevedo e Robson Fernando Santos. O delegado de polícia será indicado pela Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa do Cidadão;

*Pela Série D - Metropolitano x Marcílio Dias, às 16h, no estádio do Sesi, em Blumenau: juíza de direito Horacy Benta de Souza Baby, promotor de Justiça Joubert Odebrecht e o advogado Fernando Henrique Becker Silva. O delegado de polícia será indicado pela Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa do Cidadão.

*Pela série B - Coritiba (PR) x Duque de Caxias(RJ, às 21h50min, no estádio Arena, em Joinville: juiz de direito Gustavo Henrique Aracheski promotora de Justiça Angela Valença Bordini, advogados José Luiz Teodoro, Édelos Fruhstuck, Márcio Mário Dix ou Paulo R.Kalef. O delegado de polícia será indicado pela Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa do Cidadão.

PARTICIPAÇÃO NO 1º ENCONTRO REGIONAL DA REDE FEMININA



O objetivo do evento [realizado em 25/07/2010] foi a capacitação e atualização para as voluntárias. Estiveram presentes aproximadamente 350 voluntárias de diversos municípios de nosso Estado. A cidade de Imbituba teve a caravana com mais voluntárias, seguida da nossa Rede. Vários palestrantes abordando assuntos de interesse: Direitos dos Pacientes com Câncer (Dr. Fernando Henrique Becker Silva), Interpretação do Laudo pela Imagem (Dras. Vera Lúcia Lima e Luciana Hadtke), Falando do HPV (Dra. Claudia Dorneles), Sexualidade (Dra. Maria José Benites), Direitos e Deveres da Voluntária (voluntária Sra. Gilda Gonçalves), Estatutos Estadual e Regional (Sra. Aglaê Nazário). O dia estava maravilhoso, o sol brilhando após vários dias chuvosos. Foi servido almoço delicioso e um café gostoso na parte da manhã e à tarde também. Nossas voluntárias só tinham elogios manifestando que foi um dia bastante proveitoso.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Jurisprudência fraude contra credores: STJ. TRANSFERÊNCIA DE BENS DO DEVEDOR, MESMO ANTERIOR À DÍVIDA, PODE SER DESFEITA

Fonte: Publicações on line

A transferência de bens do devedor para se prevenir de uma futura execução pode ser desfeita pela Justiça mesmo que tenha ocorrido antes da constituição da dívida, bastando que se evidencie a intenção de fraude contra o credor. Com essa tese, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou provimento a recurso especial interposto por um grupo de devedores de São Paulo e permitiu que a transferência de seus bens a terceiros seja declarada ineficaz.

Um dos autores da manobra era sócio de concessionária de veículos que, segundo informações do processo, cometeu várias irregularidades em contratos financeiros, em prejuízo do banco financiador. Descoberta a fraude, a empresa concordou em assinar documento de confissão de dívida e deu ao banco notas promissórias que não foram pagas.

Ainda segundo o processo, desde que as irregularidades começaram a ser apuradas, a família do sócio da empresa tratou de se desfazer dos bens que poderiam vir a ser penhorados em futura execução. Primeiro, o empresário e seus familiares próximos – comprometidos por aval com as notas promissórias – criaram duas empresas e transferiram seus imóveis a elas. Em seguida, cederam suas cotas societárias para empresas off-shore localizadas em um paraíso fiscal.

A ministra Nancy Andrighi, relatora do caso no STJ, observou que, em princípio, uma transferência de bens só pode ser considerada fraude contra o credor e, assim, desfeita pela Justiça, quando ocorre após a constituição da dívida. Em alguns casos, porém, segundo ela, a interpretação literal da lei não é suficiente para coibir a fraude.

“O intelecto ardiloso intenta – criativo como é – inovar nas práticas ilegais e manobras utilizadas com o intuito de escusar-se do pagamento ao credor. Um desses expedientes é o desfazimento antecipado de bens, já antevendo, num futuro próximo, o surgimento de dívidas, com vistas a afastar o requisito da anterioridade do crédito”, afirmou a ministra em seu voto.

Os demais integrantes da Terceira Turma concordaram com a posição da relatora, no sentido de relativizar a exigência da anterioridade do crédito sempre que ficar demonstrada a existência de fraude predeterminada para lesar credores futuros. Em seu voto, Nancy Andrighi ressaltou que o STJ já havia adotado esse entendimento pelo menos uma vez, em 1992, em recurso relatado pelo ministro Cláudio Santos.

Acompanhe a publicação do v. acórdão: REsp 1.092.134 – SP, rel. Min. Nancy Andrighi.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

ECA(!) TOMBO

esse poema (?) um dia ainda vai ser publicado (!)



        O sujeito,
Meio sem jeito
Veio correndo
Pelo corredor
       Ao redor
       Do fedor...
Cambaleante

Tropeçou e caiu
Na gargalhada.

O RIO PIANTE

esse poema (?) foi publicado no Santa faz uns cinco anos

o rio
horripilante
é aquele
que pia no instante
em que se esquece
que é só um rio
que desce

A AURORA

o galo canta
e encanta
o sol, que sobe
num canto
da terra.
E um bode
berra
à espera
do silêncio que o galo quebrou...

A SOMBRA

esse hai-kai (?) foi publicado no Santa faz uns sete anos

o que assombra
é que a sombra
entristece o girassol

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A REFORMA DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Artigo de minha autoria publicado no Jornal de Santa Catarina em 17.08.2010



"Uma das principais tarefas dos deputados federais e senadores que serão eleitos em 3 de outubro próximo será a discussão e a aprovação do projeto de lei, já em tramitação no Congresso Nacional, que versa sobre o novo Código de Processo Civil. Trata-se da lei que, em substituição à legislação vigente desde 1973, regulará os atos processuais através dos quais o Estado prestará a tutela jurisdicional civil.

Um dos principais objetivos da reforma – cujos termos foram elaborados por uma comissão de juristas presidida pelo ministro Luiz Fux – é a redução do tempo de duração e a otimização do processo no Judiciário. Para tanto, o projeto em discussão prevê a redução do número de recursos, a instituição do processo eletrônico, a busca precípua pela conciliação, mediante a instituição de mediadores para auxiliar os magistrados, e a comunicação entre os juízos através de meios eletrônicos, entre outras mudanças.

Outro objetivo da reforma é a simplificação do processo. Para isso, está sendo proposta a unificação dos prazos recursais, a suspensão dos prazos processuais entre 20 de dezembro e 20 de janeiro e a substituição do processo cautelar pelas disposições da tutela de urgência, para citar alguns exemplos.

É importante que não apenas juristas e acadêmicos, mas que toda a sociedade acompanhe ativamente a discussão em torno deste projeto que, uma vez aprovado, afetará a vida de todos, direta ou indiretamente.

Não nos esqueçamos que é através da jurisdição, regulada justamente pelo Código de Processo Civil, que o Poder Judiciário aprecia as lesões e as ameaças de lesão de direito."

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O LOUCO, O POETA, O BÊBADO E PEDRO (3/3)

__ Daí o cara trai seu sentimento e, ainda quente seu corpo adúltero, esbraveja arrependido: “da displicência de um sopro quente ao pé-do-ouvido, murmúrios controversos soam paixões ímpias em realidades dispersas. Ah! Fraca razão, que abandona este reino dominado pelo amargo prazer e pela doce ilusão de que nada acabará após esse ritual selvagem. Hás de voltar e punir-me, com um vazio interno e eterno, até a próxima tempestade hormonal, nesta terra de carne, suor e gozo”.

Continua, agora irritado, o Louco:

__ Essa foi a verdade que reinou por certo tempo, cara. Na vida não existe mais essa fórmula de um mais um igual a dois. Um homem pode ser feliz (tem até mais chance, aliás) se estiver sozinho no meio do mato e não junto de uma mulher que não nasceu com ele, só conheceu depois de grande, sentiu tesão e agora vai ter que comer o feijão de arroz pra sempre. Meus irmãos, a vida não é tão simples. E vem esse piá erguendo a bandeira da ORDEM no mundo.

Pedro, intimando o Louco:

__ Fala essas coisas pr’esses caras aí; mas não para mim, meu amigo. Tu falas essas putarias todas, mas não sabes tu que enquanto houver um homem amando uma mulher e uma mulher amando um homem, Deus ainda confiará nestas plagas?

__ Justo. Estás, no mínimo, nas garras d’uma fêmea. No fundo (sabes disso) tens medo de um dia acordar, descobrir que por ela não sentes mais nada e que perdesse tua juventude pela desconhecida que ainda dorme ao teu lado.

__ Não confundas tudo, seu louco. Ser otimista ou não nada tem a ver com quem eu durmo ou deixo de dormir. Eu apenas creio que o mundo ainda tem solução!

__ Mas tem mesmo! Ele está por vir...

__ Quem? Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse? – tira sarro Seu Carlos.

__ Chame como quiseres... Cavaleiros do Bem, do Mau, Diabo... são todos a mesma coisa... – afirma o Louco.

__ Esse papo está me deixando muito deprimido, 'cês me dão licença. – sai cambaleando o Bêbado. Ao sair da porta do bar, ouve-se o som de uma freiada de carro e dois gritos. Morre o escravo da Maria Augusta. Ninguém sequer levanta.

__ Menos um. – um fala.

De repente entra no bar uma figura toda de branco, pálida. No fundo, toca ‘Rigolleto’. É o espírito do Bêbado, recém morto e assustado.

O Louco olha para ele e, sem nenhum ar de surpresa, questiona:

__ Alguma mensagem dos meus?

__ Que nada! É que descobri o sentido de tudo e resolvi voltar para lhes contar.

__ Somos todos ouvido. – diz Seu Carlos.

A alma penada responde:

__ Reza mansa a geometria que mesmo retas paralelas no infinito se encontram. Ora, assim não existem caminhos opostos, mas entrelaços universais. Sonhos, desencontros, aspirações... são meros sopros cósmicos, iluminados pelas estrelas – agora minha casa, que fazem da vida não simples coincidências, mas destinos traçados na aurora dos tempos (onde nasce o infinito). O Infinito, supérfluo quando o Amor... não, Amor não, não ouso... poesia é tempero neste “banquete lácteo”. Fome! Vou atrás de Maria Augusta. Tchau. – parte pela porta, enquanto o Poeta bate palmas.

__ O cara deve ter ido para o céu dos bêbados! – diz Pedro.

__ O céu dos bêbados é aqui, meu amigo. – respondeu o Louco.

__ Diga-me então, Louco, o que é o paraíso?

__ Assim como Deus, cada um tem o seu. Jamais entraremos num consenso.

__ Concordo. Mas como vês o teu? – Pedro curioso.

__ Sobre meu paraíso, entrei em acordo comigo mesmo: deveria ser algo fácil de se atingir. Convencionei que não haverei de aguardar a dita “grande passagem” para ter acesso a este reino abençoado por minha fome de prazer. Aliás, muito pelo contrário, é tão simples...

__ Fala, porra! – irrita-se Seu Carlos.

__ Tá! É o seguinte: meu paraíso é uma sala com um colchão cobrindo o chão. Sobre ele, uma mulher – não importa o cheiro, a cor, o gosto – uma mulher. Ali ficaríamos, descobrindo-nos à luz de centenas de velas espalhadas pela sala ou, numa eventualidade...

__ Teu paraíso tem eventualidades? – pergunta o poeta.

__ Cala a boca. Deixa eu continuar: daí, se por algum acaso não houver velas, basta a luz da televisão, muda, fora do ar. As paredes tocando The Doors. Ficamos ali durante semanas.

__ Jantando palavras de amor? – torce, então, o poeta.

__ Não. Nada. Talvez. Sabe como é: o homem nasce bom, a sociedade o corrompe e a mulher prova que ele é burro. Então em meu paraíso somos sós, a ausência do sol e suor. Nada de palavras. Eis o meu paraíso.

Pedro, como se perguntassem:

__ O meu paraíso fica num lugar à beira do mar. Talvez na praia. Quem sabe até nas pedras, sob o sol. Lá, a língua oficial é o Francês, muito embora não precise usar palavras. Tu só precisas pensar, desde que sincero, e o outro logo te entende. Lá, o homem não coloca a mão, nem tem acesso com forma sequer de preconceito - tens que abdicá-lo se quiseres ali ficar. Chegar até. O fundo musical é o mar batendo nas pedras, quando muito o vento cheio de malícia sussurrando a paz. Lá também não se pode julgar.

Deus, cansado daquela corja de egoístas que, convenha-se, está abusando dos assuntos respeitantes somente a Ele, manda um raio que os faz calar para sempre...

(07.12.2001)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

SINHAZINHA CARRETEL

(31.03.2003)

O marmanjo que invadiu,
arredio e atrás de melado, a dispensa
apresentação dispensa.
Fora herói pr’uma alma a quem emprestou asas
e que na grande casa... lá servia;
fez anjo uma de tez escura,
uma negra pura
que não é mais escrava não.
Era ele um viandante, um luso elegante
que, chegando ofegante, aqui parou
dez dias.
Dizia ser senhor do mundo;
e o negro imundo que vos fala
de lembrar quase se cala
de tanta tristeza e saudade:
é que a “Dona Liberdade”
certa noite descobriu meu ninho
e no meio de um carinho
Carretel cismou: “vou m’embora!
Não te apavora
morrer sem correr,
uma vez ao menos,
por estas praias feito caranguejo?”.
Eu, com um beijo, a fiz calar
porque suportar sua falta
era cruz tão alta, tão sofrível...
assaz difícil de carregar;
amei-a, então, mais que a vida
e aquela coisa doída perdeu-se ali.
Mas a princesa deste chão
– meu coração,
viu no luso a salvação:
tornar-se-ia com’uma cotovia:
livre! A sua carta de alforria,
sabia,
se escondia no amor do português.
O pobre moço,
ao despir sua timidez,
seu alvoroço,
Repetiu mais de uma vez,
que eu ouvi:
“__ Essa negrinha vai ser minha!
Nem que eu tenha que preto virar,
perder a linha, roubar (pois que roubou-me ela o sossego!)
a rapariga, e quem quer que me siga
descobrir-me-á realizado!
Quero ser seu negro!”
Certa feita, ele a’bordou num canto
e, para meu espanto,
ela sorriu
quando ele lha ofereceu
tão sonhada liberdade,
mais mil doces tardes
na Europa com lindas tropas
a desfilar em sua janela.
Carretel deu-lhe trela
e de forma singela
jurou-lhe, falsa, fiel amor.
Este rancor
que corrói o meu presente
ainda lembra das desculpas
dela.
Ela, que as cuspia no meu corpo
na noite que, após o dele quarto,
foi ao meu contar seus planos;
eu, quase farto, padeci
diante do meu maior engano:
amar insano, tão louco, uma mulher.
O plano deles?
Seria na Festa do Divino
Que eles escondidos
dos alvos, partiriam
no ‘blém-blém’ dos sinos,
rumo ao seu destino:
o além-mar.
Chorei a vida
vendi a alma
perdi a calma
e lhe implorei ficar.
À Iemanjá fiz oferenda
mas nem ela me escutou.
Não podia um simpl’escravo
amarrar consigo o espírito
livre de uma princesa
africana.
Ela fez a gentileza
de deixar-me uma certeza:
eu a fiz muito rainha.
Mas para tristeza minha,
mais que eu, ela queria
ver-se livre das correntes.
Chegado o dia combinado,
estava tudo preparado:
os convidados murmurantes
com seus semblantes displicentes
irritavam, inocentes, a negra moça
no instante todo da espera do pecado
que o covarde do amante,
nada galante, ainda não se arriscara
mergulhar.
Mergulhar em rebeldia
àquelas alegorias falsas,
gurias meras,
infantis quimeras,
tédio de valsas...
que lhe faziam tanto mau.
“__ Fujas comigo, cases comigo,
meu amor. Partamos já!” – chilrou enfim.
Ela, que servia a nobreza vazia,
com os olhos em lágrimas, virou-se para mim.
O sorriso que (fingi!) fugiu-me os dentes
rompeu as correntes que a prendiam mais até
que o grilhão que sua cor lhe impôs aos pés.
Pés descalços
que, em passos falsos,
tentara fugir, desde a idade tenra.
Sempre quis e pode agora
“quilombear”.
Os filhos da Mãe Terra,
da África Mãe, negros dos meus
sonharam o apogeu daquela uma.
Libertos, fugidos, ainda... foram ao cais
e naquele raiar, nós fomos reis,
como éramos lá do outro lado.
Presentearam não Iemanjá, mas a livre
que um dia tive em braços cansados.
Naquela manhã dos pretos,
o sol era ribalta do cenário
muito embora desnecessário
pois já era tudo belo
para aquela negra minha.
Carretel,
A noiva sem véu
de dedos lambuzados de mel (da sua Lua)
perdeu o anel (ou seria a aliança?)
herdado na dança, dela ida criança
do inferno ao céu
num navio de papel.
Na despedida (tão sofrida!)
não resistiu
da nave, o assobio;
na face, uma lágrima se viu
recompôs-se elegante, virou-se e com olhar distante
ganhou o esp’ássaro. Uma gaivota flagrou
na pele marrom, um arrepio
ciente que a viagem era sem volta;
livres (só elas o são!) as aves eram escolta
e testemunhas do fel
que dava gosto àquela insensatez.
O português ao lado, ignorado e cortês
acenava para os do porto.
O povo, de sorriso torto, retribuía ao infeliz
- o maldito que quis
carregar
para longe, a mais bela daquelas,
moça que atirara o que lha afligia os dedos ao mar
(em minhas mãos).

O LOUCO, O POETA, O BÊBADO E PEDRO (2/3)

__ Por falar em beber: ô Seu Carlos, cadê a branquinha? De butiá, hein! – e para Pedro, enquanto o velho dono do bar traz a cachaça: Bicho, a tirania é a única regra nessa lama que vocês engolem e cagam desd’antes da época do mercantilismo, desde que o mundo é mundo; mas que está finalmente secando. Aliás, tirania não é só ditador latino-americano dando porrada nos pele ou boina vermelhas. É toda essa babaquice de submissão aos sistemas.

__ Para que esse papo furado? Essa lenga-lenga ideológica que não leva a nada, se é tão bom e tão mais simples falar da doença dos tempos: o amor? – interrompe um sujeito meio excêntrico de óculos de lentes cor-de-rosa, em pé e cima do balcão. O Poeta.

Continua o Louco:

__ Em verdade, em verdade vos digo: este quadro que vocês insistem aplaudir, comprar e babar nas salas de visitas está para ser tirado da parede. É prova de que nada está dando certo: está tudo tão triste, tudo sem cor. O homem se entorpece no rancor de ter-se perdido, só - verdade crua - neste labirinto de loucura... Loucura por riqueza, por posição. Da dor do próximo, a construção desses prédios de egoísmo, muros de mentiras e cinismo. Crianças pobres, crianças mortas. Nós covardes, atrás das portas, contando nosso dinheiro e nos perdendo por inteiro. Perdendo a chance de nos dar... À luta! Vamos ter que jogar a verdade na cara dos imbecis e morrer todas as noites pr’um amanhecer feliz.

O Poeta:

__ Mas que tal nos esconder no mangue? Pra que se afogar em sangue, se é tão bom, tão mais óbvio falar de amor?

Pedro:

__ Amor de homem e mulher. Amor de irmãos, e até mais... amor de iguais, quem não quer?

O Louco continua com ar abatido, como se não interrompido fosse:

__ Esperança e paz aqui na Terra. Faça amor, não faça guerra! Mas o bicho homem se nega, nessa vingança burra e cega daquilo que perdeu e que sempre foi seu. Mas soube ele noutro plano, um dia, que era dentro dele que se escondia toda a verdade que sempre quis; e hoje ele torce o nariz só porque desconhece que, através de simples prece, pode ser mais que homem, quase um anjo - que toca harpa, brinca com banjo e segue firme sua saga, seu caminho... todo de branco, em puro linho. Vaidoso? Só por brincadeira. Mas por mais que sua’lma não queira vem o Mau e o balança. Esse maldito não descansa!

Pedro, contando nos dedos:

__ O homem se perde na gula; a preguiça o estrangula; a inveja corrói seu coração; e ainda vem a ambição, de braços dados com a luxúria; e a ira o envolve em fúria tão forte quanto a vaidade. E evoluir, ele deixa para mais tarde. Desconhece ele que nessa hipocrisia ele vai sentar-se nunca à direita de Deus-Pai.

__ Não, não falemos de Deus, tu tens o Teu, eu tenho o Meu... Além do que, é tão mais simples falar de amor! – quebra novamente o clima, o Poeta.

Ansioso, fala Pedro:

__ Amor de homem e mulher. Amor de irmãos, e até mais... Amor de iguais. Quem não quer?

O Louco, enxugando o suor com a manga da camisa:

__ O homem nem sabe que nesse mundo não mais cabe tamanha falta de respeito. Ninguém mais se dá o direito de gozar mísera paz - que tanto O Celeste apraz; mas que se perde em simples mau - mentira, ódio... tudo igual, o reconduz para baixo (selvagem fêmea, selvagem macho). E o que, ao certo, norteia arcanjo, duende, sereia, é a lei de que se deve ser bom. Todos, um só, num mesmo tom, preparemo-nos para o porvir e, se acaso cair, com toda a fé do mundo, reze! porque cristão que se preze - e Cristo está à direita do Senhor! - transfere todo amor para a grandeza de seus propósitos. O mundo é repleto de paradoxos; de verdades nem tão assim. Mas só existe um único fim: evoluir. Mas não te esqueças de sorrir - porque o sorriso é uma flor nos jardins da Egrégora do Amor.

Pedro, animado e trêmulo, sacode os braços e dispara:

__ Não adianta abrir os olhos destes pobres, porque existe coisa bem mais nobre: nada melhor que falar de amor! Amor de homem e mulher. Amor de irmãos, e até mais... Amor de iguais. Quem não quer?

O Poeta aplaude. Finaliza a discussão, o Louco:

__ Abdico tudo que nasceu comigo, tranqüilidade, riqueza, mas não amigos; pois são como eu: alma nobre que assaz sofreu nesta longa caminhada. Mas não quero mais nada: de minha cabeça faço mira para os poetas sem liras - falsos detentores da certeza, que espalham por aí a fraqueza da crença que tudo termina em si. Senhores: aqueles em quem um dia cri não mais dominarão este lugar. Com eles haverei de lutar com o mais poderoso escudo: na provocação faço-me mudo, e revido com perdão. Daí eles sofrerão com a verdade suprema em suas portas. Suas frases tortas padecerão diante da luz, como Cristo morto na cruz, para mudar tudo que nos cerca. Estejamos todos em alerta!!! Deixemos de falar de amor! Esqueçamos de falar de amor! Enterremos a palavra amor! Façamos com que ela, da forma mais singela, circule por entre nós e que possamos crescer ao som d’uma só voz: Amor de homem e mulher, amor de irmãos, e até mais... Amor de iguais. Quem não quer?

O poeta começa a chorar. Pedro acompanha as lágrimas do pobre.

__ Calem a boca! – grita um bêbado debruçado sobre o balcão de madeira riscada. Continua, ainda aos berros: Amor é aquilo que nasce, pensa que vive e morre entre dois momentos de dor, angústia e desilusão. É onde nós, náufragos de um mundo irreal, procuramos pela maré chegar e sobreviver aos turbilhões da solidão, às ondas da tristeza e nos iludimos descansar após infinitas braçadas de auto-piedade e mentiras sinceras.

De dentro do espelho:

__ Viva Cazuza! Viva Cazuza!

__ Psiu! – Pedro censura o homem do espelho e, para o Bêbado, comenta: Que angustia a tua, hein?!

Responde o Bêbado:

__ É uma merda esta vida! Esta vida é uma merda! Digo, explico e convenço: é que tem uma moça aí que me encanta. Cara, somos feitos um pro outro, juro! Só que eu não consigo entendê-la... e olha que eu tento! Acusa-me de frio de vez em quando; outros quandos de ser afobado. Eu faço de tudo! Esses dias eu até disse pro meu “Labirinto” (chamo-a de Labirinto porque a cabeça dela é uma coisa tão confusa que até deve ter um Minotauro escondido lá dentro): “Tô indo brincar Labirinto, te provar o que sinto e o que o destino diz: fazer-te-ei tão feliz! Sabes bem, sou arredio. Mas sofrer não dá mais. E ademais, Sinhá Lindeza, hoje eu tenho a certeza que tu és o meu cais... sou navio!”. Então ela me diz: “Calma, ser-te-ei de corpo e alma. Antes, porém, hei de conquistar meu espaço!”. Daí eu a seguro no braço, mas depois largo: “Vá em paz! Afinal, Deus sabe o que faz.”. E ela parte sem olhar pra trás. No meu peito, o que sinto não cabe: Sua falta. Quanta saudade!

__ Meu amigo, quanta angustia! – disse o Louco.

O Poeta:

__ Essa angustia, tu afogas na cachaça... E da moça, qual a graça?

Responde o Bêbado:

__ Maria Augusta. Maria Angustia.

O Louco:

__ É o preço dessa barbárie! Esse crime dos homens contra a Natureza: essa tal monogamia. Mas isso vai acabar! Esta história de dois corpos e uma só alma está ultrapassada, visto poderes pleitear crescer sozinho feito um eremita. Mas também podes galgar a “Egrégora da Felicidade” sendo de todos, porque tu és um deles... como uma laranja num cesto. Mesmo porque... – o Louco é interrompido pelo do espelho:

__ “... quem gosta de maça irá gostar de todas porque todas são iguais...”

__ Viva Raul! – todos, menos o Bêbado e o Poeta. Este, em socorro à sua razão de ser:

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O LOUCO, O POETA, O BÊBADO E PEDRO (1.ª parte de 3)

(07.12.2001)

Um cara, Pedro, anda pela calçada entretido no fone de ouvido, quando adentra no ecleticismo de um bar num início de tarde de segunda feira. Chove. Toca, na hora e no fundo, ‘La Chanson Pour Anna’, belíssima. Traz no sovaco um livro com capa de couro do Mario Quintana com as letras, outrora douradas, sumidas. Vem vestido com uma camiseta que mandara tingir no peito a palavra “ORDEM”, só isso. “Boas tardes”, num Português de Portugal – lera Saramago fazia pouco, dirigindo-se ao dono do bar. Senhor de boina velha, canino esquerdo de ouro e barrigudo atrás do balcão. Há um espelho na parede, também atrás do balcão.

Senta-se numa mesa nem de frente, nem de fundo. Abre o jornal que descansara a manhã inteira sobre o balcão, sob copos. É de junho de 1978. Começa a folheá-lo.

Eis que entra um velho vestindo um chapéu de palha, “tarde!”, faz um sinal para o barrigudo que lhe prepara dois dedinhos de pinga. O cara para, olha em volta e em direção de Pedro, aponta-lhe o peito e diz:

__ Não é ordem: é desordem!

__ Perdão? – Pedro não entende.

__ É a tendência do novo milênio: DESORDEM. Dizemos que é a nova ordem mundial.

O rapaz pára de ler:

__ Anarquista?

Um sujeito de dentro do espelho grita, interrompendo a conversa:

__ Graças a Deus!

__ Cala a boca, ô Zélia Gattai – repreende o dono do bar, Seu Carlos. Chamemo-lo de ‘Seu Carlos’.

__ Não, – continua o velho (Louco), que sentara debaixo da mesa donde descansava Pedro – alguém por dentro do que está para acontecer.

__ E do que está acontecendo, algo sabes?

__ Tudo.

Pedro, displicente:

__ A humildade, tolo, é o jardim das virtudes.

De dentro do espelho, nova interrupção:

__ “Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos” .

__ Sai fora, Jesus, o Cristo. – Seu Carlos tolhe-o novamente.

O velho Louco continua, sentado ainda sob a mesa de Pedro, em frases desconexas:

__ Esse teu papo de anarquia... opções políticas, pelo menos as que conhecemos hoje e que você respeita... primeira, segunda ou terceira vias não condizem com a realidade que está para sair da porta dos novos tempos... a aurora de um novo mundo sopra em nossa face e você com esse papo furado de "ordem"! Acorda pra vida, amizade!

__ Então, meu senhor, estás a dizer-me que cairá por terra toda aquela concepção utópica de democracia sem ao menos bebermos o cálice de sua plenitude? – retruca Pedro.